terça-feira, 23 de setembro de 2008

Sinos

Há poucos dias atrás li uma crônica do Eduardo Galeano; a crônica era sobre sua personagem Juana e intitulada “Juana aos Dezesseis”, lembro que a crônica falava de certo sino conhecido por seus tantos toques diferenciados quando do manuseio certo do sineiro; era um famoso sino, porém ocorreu que certa vez o sino tocou alegremente madrugada adentro numa composição de sons que ninguém conhecia e todo o povo acordou para ver o que estava ocorrendo. Logo o padre foi ver o que estava acontecendo e quem estava tocando o sino assim loucamente, por fim descobriu que o sino tocava por conta própria, no mesmo instante convocou o Santo Ofício e este por sua vez declarou o sino sem valor; o calou, mandando-o para o exílio no México.

Esse pequeno trecho da crônica do Eduardo Galeano remeteu-me a consideração (certamente onde o autor queria chegar) em que supõe que todos sejamos sinos manipulados pelo sineiro (sistema, elite, burguesia dominante, mídia etc.), ou seja, literalmente dançamos, mas não tocamos a música, e quando isso acaba de modo diferente, acabamos tocando por nós mesmos. Quando deixamos de ser manipulados por mãos e mentes alheias passamos a ser inconcebíveis com o sistema vigente e assim somos convidados a nos retirarmos, da mesma maneira que o sino foi mandado para longe ou, como nos tempos da Ditadura Militar, exilados. Hoje, porém, normalmente somos apenas isolados, postos de lado.

A crônica pode ser bem contextualizada ao nosso cotidiano, pois ainda somos como sinos, manipulados por alguém e quando alcançamos as poucas chances existentes de tocarmos por conta própria, somos imprudentemente levantados como rebeldes de um sistema que para muitos está maravilhoso. Pra finalizar deixo uma frase que conheci há algum tempo atrás, que também pertence ao Eduardo Galeano:
“A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar”.

Postado por Rafael J. R. Silva


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