No dia 21 de Maio de 2011 um pequeno grupo de colegas do curso de Sociologia se dirigiu à cidade histórica da Lapa para fazer um trabalho de campo relacionado às temáticas conceituais desenvolvidas no curso, como, por exemplo: a significação de uma cultura.
A distância entre a PUCPR e a cidade da Lapa é de cerca de 70 km. A rota é de fácil acesso, pois a cidade faz parte da Região Metropolitana de Curitiba e grande parte do trajeto é feito por estradas mantidas com capital privado, portanto, pedagiada.
O entorno da cidade da Lapa é marcado por traços imigratórios, principalmente de alemães: a região denominada Bacia Leiteira é um exemplo. Esses imigrantes se concentraram ao redor da cidade por não possuírem o referencial de cultura burguesa que a Lapa tanto buscava e a qual prevaleceu sobre outros elementos culturais, tais como, a própria cultura imigrante alemã, a cultura tropeira e a cultura africana.
A Lapa por conta de seus espaços geográficos alcançou um considerável desenvolvimento econômico em sua consolidação como cidade, contudo, seu episódio principal deu-se no último decênio do século XIX quando ficou conhecida nacionalmente pelo confronto direto com as tropas contrárias ao governo republicano de Marechal Floriano Peixoto.
Esse episódio ocorrido em 1894 de certa forma norteou toda a construção memorial da cidade: museu, biblioteca, teatro, praça, fazem parte de um recorte histórico comum: o Cerco da Lapa; onde bravamente homens fiéis à administração Floriana travaram uma batalha civil destacada em nossa literatura, como, por exemplo, a do escritor Lima Barreto, vejamos:
A revolta já tinha mais de quatro meses de vida e as vantagens do governo eram problemáticas. No Sul, a insurreição chegava às portas de São Paulo, e só a Lapa resistia tenazmente, uma das poucas páginas dignas e limpas de todo aquele enxurro de paixões. A pequena cidade tinha dentro de suas trincheiras o Coronel Gomes Carneiro, uma energia, uma vontade, verdadeiramente isso, porque era sereno, confiante e justo. Não se desmanchou em violências de apavorado e soube tornar verdade a gasta frase grandiloqüente: resistir até a morte. (BARRETO, 1998, p. 152-153).
Embora os caminhos da historiografia tenham acelerado o processo para o fim de uma história-memória, Pierre Nora destaca que em determinados círculos essa preservação ocorreu por meio de uma escolha seletiva para a perpetuação e domínio cultural e ideológico de certos grupos (NORA, 1993, p. 7-13). Portanto, a memória transformada em história na cidade da Lapa fez com que, aparentemente, todos fossem pertencentes a essa memória, no entanto, basta uma investigação mais detalhada sobre os aspectos culturais e memoriais da Lapa para que se compreenda que quem faz parte realmente dessa história-memória pertence à elite lapeana da época, enquanto outros grupos foram alijados dessa história-memória.
Essa elite lapeana pertencia aos quadros da velha aristocracia brasileira ou da burguesia ascendente que olhava para a Europa como o modelo civilizatório. A separação dos espaços de classe fica evidente no Teatro São João: frisas/camarotes = elite aristocrática; platéia = burguesia ascendente; ou, ainda, na igreja de Santo Antônio: parte acima do altar = elite aristocrática; parte abaixo próxima ao altar = burgueses; parte abaixo e distante do altar = pobres; e ainda, espaço ao lado e distante do altar (de onde apenas se ouvia a missa) = escravos.
Por conta dessa escolha memorial relacionada aos eventos sobre o Cerco da Lapa, nessa cidade se desenvolveu, também, um espírito militar, inclusive o 15° GAC AP produziu seus quadros que participaram da vida militar do país, inclusive o Ministro da Guerra entre os anos de 1952-1954, Ciro do Espírito Santo Cardoso, era lapeano. Outro quadro importante produzido na Lapa é o político, homens como: Ubaldino do Amaral, Ney Braga, Luiz Carlos Borges da Silveira eram lapeanos. Da mesma forma um quadro intelectual foi formado a partir do século XIX nessa cidade, como, por exemplo: Hipólito Pacheco Alves d’Araújo, Victor Ferreira do Amaral e Silva, Manoel Pedro dos Santos Lima e Flávio Suplicy de Lacerda.
Durante nossa visita alguns cenários dessa história-memória foram privilegiados, tais como: o Panteão dos Heróis, a Casa Lacerda, o Museu das Armas, o Museu Histórico, o Teatro São João etc., ficaram de fora de nossa proposta investigações sobre a religiosidade popular em torno do monge São João Maria, onde o espaço se denomina “Gruta do Monge”; questões pormenorizadas sobre o tropeirismo na região; assim como a festa da congada que resgata uma festa popular de matriz africana.
Em poucas palavras posso dizer que o trabalho de campo ocorrido na cidade da Lapa foi bastante proveitoso em termos acadêmicos, pois, se não estou enganado, essa foi minha sexta visita à cidade, mas não havia feito uma releitura sobre os aspectos históricos da mesma.
De comum acordo com outras visitas feitas anteriormente na cidade constatei que o pessoal responsável pelas informações prestadas acerca do movimento histórico tem um conhecimento muito superficial sobre os eventos, ademais, tratam os mesmos com certo romantismo e nostalgia, sem uma problematização real sobre os motivos de a Lapa ter resistido, os quais não sejam apenas bravatas de puro heroísmo.
Contudo, que não recaia somente sobre esses funcionários a culpa pelas informações oficiais não problematizadas, mas sim sobre toda uma cultura de não-preservação de nossa história, que verifiquei em outros momentos quando visitei cidades históricas em Minas Gerais. Muitos acervos históricos brasileiros não são equipados com profissionais técnicos, tais como: historiadores, sociólogos, antropólogos etc.
Algumas informações colhidas durante meu trabalho de campo aguçaram minha curiosidade no que diz respeito aos aspectos de parte de minha história familiar. Tenho parentes que residiram e outros que ainda residem nessa cidade. Meu bisavô, Pedro Mariano, era lapeano. Não cheguei a conhecê-lo pessoalmente, mas sei que ele era negro e que seus familiares descendiam de escravos. Pois bem, julgo que, talvez, Mariano não seja um simples sobrenome, mas antes uma denominação senhorial dada aos escravos pertencentes às famílias de posses, nesse caso àquelas da região de Passo dos Marianos (Lapa), onde nasceu, por exemplo, Ubaldino do Amaral.
Todavia, no momento, essas informações transformaram-se em apenas cogitações, um dia poderão ser transformadas em hipóteses e quiçá em evidências.
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