De tempos em tempos se observa uma variável interpretação sobre aquilo que é real e aquilo que é virtual. Embora associemos virtualidade com os conceitos de modernidade, ou pós-modernidade, o virtual, como potência existente, ou seja, possível de se realizar, povoa o imaginário social há milênios. Bastasse uma verificação nas fontes bíblicas e teríamos um quadro virtual completo: promessas sobre uma terra que mana leite e mel, um paraíso reservado aos eleitos etc.
Agostinho tratará sobre o virtual e o real em sua obra Cidade de Deus, Cidade dos homens. Os conceitos desenvolvidos na obra pelo bispo de Hipona remontam uma longa tradição teológica e filosófica. Bebe das fontes da teologia hebraica, mas também das elucubrações platônicas. Para Platão o real e o virtual se imbricavam, todavia o mundo das ideias era o modelo eterno e perfeito do que existe, o bom e o belo, alcançado apenas pela potencialidade mental (PLATÃO, 2000).
A tradição judaico-cristã-ocidental preservou ao longo dos séculos a separação entre essas duas realidades distintas, embora alguns idealistas julgassem essa separação possível de ser rompida mediante a perseguição do belo, do bom e do justo nesse mundo, o que significava se aproximar do modelo utópico de sociedade desenvolvida por Morus. Daí o esforço de intelectuais, políticos, cristãos para dar cabo da injustiça, da desigualdade, do conflito numa época propensa a esses problemas por conta do capitalismo. Logo esses intelectuais, políticos, cristãos, foram acusados de utópicos, pois suas investidas teóricas apenas remediavam as crises, mas não davam conta de superá-las, visto que teorizavam o não teorizável, o virtual, ao invés de partirem do real, do concreto (MARX, ENGELS, 2000).
Como vimos à imbricação entre o real e o virtual se faz presente em inúmeras discussões, sejam elas teológicas, filosóficas, políticas, pondo em contraste o objetivo, do subjetivo, o físico, do metafísico. Se o virtual é antes subjetivo, metafísico, faz-se necessário uma investigação nas bases antropológicas desse sujeito arquiteto de mundos (i)rrealizáveis, (im)possíveis, que antes de ser objeto de desfrute e deleite para os outros o é para ele. Portanto, analisaremos a imagem de si construída pelo homem a partir de três modelos: o modelo de homem teocêntrico, o modelo de homem antropocêntrico e, por fim, o modelo de homem egocêntrico.
Dois modelos alienantes: o homem teocêntrico e o homem egocêntrico
Primeiramente é inquestionável que esse homem arquiteto de si, de mundos para si é o produto de seu tempo, logo é o mesmo que compreendeu ser ele a imagem e semelhança de Deus, portanto, sua cosmovisão holística julgava a imagem de si concernente à vontade d’Ele. A graça e a desgraça, o belo e o feio, a pobreza e a riqueza, a aptidão e a inaptidão faziam parte de um bojo hermenêutico próprio da religião. Esse homem é subjugado, comprimido por vontades externas a ele próprio (VERNANT, 1988), é enquadrado em limites estruturais cosmogônicos dados pela manifestação teogônica. A mitologia hebraica, grega e romana é exemplificam isso.
A filosofia grega nasce no berço dessa mitologia e por isso não produziu um rompimento abrupto nessa concepção de sujeito e de mundo, visto que séculos mitológicos deixaram marcas indeléveis, as quais serão transferidas para o Império Romano Cristão, e sustentadas pelos argumentos dos padres da igreja, tais como: Agostinho, Jerônimo, Eusébio etc. A mudança nesse sentido dá-se apenas no que se refere à concepção monoteísta do cristianismo. O dogma católico sustentou que esse homem e esse mundo eram à imagem e semelhança de Deus e esse homem aceitou que era, sim, à imagem e semelhança desse Deus.
A Reforma Protestante, no século XVI, ao enfatizar à livre interpretação das sagradas escrituras abriu possibilidades desse homem forjar uma nova imagem de si. Com essa possibilidade a Europa experimentou não apenas um reforma moral no clero, mas uma revolução subjetiva do homem, a qual invariavelmente traria, mais dia menos dia, uma revolução objetiva preconizada por teóricos políticos, como, por exemplo: Hobbes, o qual não via com bons olhos essa livre interpretação da Bíblia (FOUCAULT, 1979). Gramsci dirá (...) da Reforma Protestante, decorreu a filosofia clássica alemã e o vasto movimento cultural de onde nasceu o mundo moderno (GRAMSCI citado por SCHLESENER, 2007, p. 69). E é justamente da filosofia clássica alemã que surge o primeiro golpe a essa imagem de homem centrado na imagem de Deus. Ludwig Feuerbach (1989) dirá que não foi Deus que criou o homem, mas o homem criou Deus e transferiu a esse ser criado tudo o que ele não é, ou não consegue ser. Deus, portanto, seria a projeção exterior do desejo de perfeição do homem. Contudo, com isso o homem se aliena, pois cede a outro algo particular dele. O homem fez Deus à sua imagem e semelhança.
Dessa investida teórica feuerbachiana outros autores se apropriarão, Marx (MARX, ENGELS, 2000), por exemplo, dirá que a religião é o suspiro da criatura oprimida pelas forças econômicas e aplicará o conceito de alienação ao modo de produção. Contudo, será Nietzsche (2001) ao final do século XIX que salientará a urgência de uma nova imagem de homem, o qual refutará ser a imagem de outro, mas assumirá sua própria condição demasiadamente humana, ou seja, assumirá seus defeitos e não se eximirá de suas responsabilidades. Esse homem será denominado o Ubermach, o Super Homem. Esse novo homem tirará Deus do centro e em seu lugar colocará a si próprio.
No entanto, esse antropos está em constante mudança de imagem, como um camaleão se integrando às superfícies em que se assenta. Mais do que isso, pretende não apenas se adequar ao contexto de seu tempo e de sua superfície, mas, também, dominar esse ambiente por meio da dominação da própria imagem que tem de si (MACHADO, 2001, p. 72). Não aceitará ser a imagem e semelhança de Deus, visto que, agora, julga-a repleta de inúmeros defeitos estéticos e morais. Por conta disso, alterará substancialmente sua estrutura física pelas vias objetivas e, portanto, reais. Recorrerá, então, as mais diferentes cirurgias. Também fará alterações de ordem subjetivas e, consequentemente, virtuais: construirá um avatar de si mesmo. Esse avatar é fabricado a partir do eidolon na busca do homem pela aparência das coisas (CHAUÍ, 1988, p. 35). Sua representação se transforma em seu próprio ídolo, tal como o personagem Dorian Gray criado por Oscar Wilde.
Essa discussão, no entanto, se dará somente ao final do século XX e início do XXI com as inúmeras possibilidades quiméricas da inteligência artificial. Se esse homem não é mais a imagem e semelhança de Deus, como sustentava o dogma cristão, também não é mais a imagem e semelhança dele mesmo, como sustentava Nietzsche. Para tanto esse ser humano forjará um deus a partir de si mesmo, com uma imagem paulatinamente alterada em seu exterior até tornar-se perfeita.
Como dito anteriormente, essa imagem pode ser forjada a partir do real: um corpo igual à daquela pessoa modelo, que por sua vez emprestou de outra pessoa modelo, as quais, portanto, receberam corpos que não são legítimos, nem particulares, mas padronizados. Cirurgiões plásticos possuem modelos de narizes, orelhas, bocas, corpos dos mais variados gostos, pois, afinal, gosto não se discute (HUME, 1987).
O ser humano odeia sua condição estética e moral e tal qual Pigmaleão forja um modelo pelo qual possa se apaixonar. Esse modelo pode também ser forjado no virtual, nas páginas de redes sociais, as quais esperam um usuário obviamente sociável que inaugure sua rede de “amigos”. Nas páginas dessas redes as fotos pessoais são manipuladas por softwares de edição de imagens para diminuir, aumentar, ou consertar qualquer aparência física a ponto de escolher com que corpo quer se apresentar (KEHL, 2004).
Além da preocupação estética esses usuários também se preocupam com questões éticas e, nas próprias redes sociais, defendem causas reais, como, por exemplo: preservação ambiental, desarmamento etc; contudo, sem aderir materialmente à causa. Ademais, constroem perfis adequados, onde se destacam os feitos e a visão triunfalista da vida. O que não é bom, ou demasiado humano, se esconde. Sócrates enunciava a necessidade de se conhecer a si mesmo como fundamento da sabedoria, mas nenhum usuário está disposto a evocar seus inúmeros defeitos numa rede social. Leandro Konder, em um artigo intitulado “Curriculum Mortis e a reabilitação da autocrítica”, propõe algo parecido com o do filósofo grego. Ao invés de destacarmos apenas o sucesso, que destaquemos os insucessos para testar nossa popularidade, e ver se a mesma se mantém.
As discussões feitas aqui se propuseram a uma investigação entre os limites da realidade e virtualidade no imaginário do homem, por isso esse exercício antropológico em caracterizar historicamente três modelos forjados pelo próprio homem para se enquadrar no contexto social de sua época. No primeiro modelo, segundo Feuerbach, o homem criou uma imagem dele em (des)conformidade com a imagem que ele criara para Deus: uma imagem teocêntrica e alienante; no segundo modelo, conforme Nietzsche, o homem se emancipa pela concepção de que ele é a sua própria imagem e semelhança, nesse caso, a imagem antropocêntrica é libertadora; por fim, no terceiro modelo o homem fez da imagem de homem criada e idealizada por ele o próprio homem, nesse caso, o egocentrismo é novamente alienante.
Uma das explicações para esse pêndulo quanto à imagem assumida pelo homem no decorrer dos tempos, é o fato de que este se desapaixonou de sua imagem, em contraposição a Narciso na mitologia grega. Quando o Ubermach se emancipou e assumiu seus erros e virtudes, percebeu que existiam mais erros do que necessariamente virtudes, mais feiúras do que belezas. Chocou-se então com essa condição libertária a ponto de querer se alienar novamente numa imagem forjada no mundo virtual da inteligência artificial. Jogos de computador e filmes também corroboram para a insistente busca por outro modelo de nós mesmos. O filme de James Cameron Avatar suscitou discussões nos EUA, pois o personagem principal é paraplégico na vida real, mas ganha a reabilitação dos membros com seu avatar.
A característica alienante desse homem egocêntrico dá-se pela escusa em escrever o próprio roteiro, como considera Bauman (2001) e, também, assumir a própria imagem. Seus subterfúgios servem para transferir responsabilidades e idealizar um ser perfeito, sem medos, defeitos e culpas. Difere do homem alienado feuerbachiano apenas no que se refere ao caráter religioso. Se o primeiro modelo de homem alienado projetava em Deus tudo aquilo que ele não era, agora o homem egocêntrico projeta num ser virtual, seu avatar, da mesma forma tudo aquilo que ele não é. Seu individualismo permite a criação desse mundo virtual propenso a colocá-lo no centro de seu próprio desejo.
Agostinho tratará sobre o virtual e o real em sua obra Cidade de Deus, Cidade dos homens. Os conceitos desenvolvidos na obra pelo bispo de Hipona remontam uma longa tradição teológica e filosófica. Bebe das fontes da teologia hebraica, mas também das elucubrações platônicas. Para Platão o real e o virtual se imbricavam, todavia o mundo das ideias era o modelo eterno e perfeito do que existe, o bom e o belo, alcançado apenas pela potencialidade mental (PLATÃO, 2000).
A tradição judaico-cristã-ocidental preservou ao longo dos séculos a separação entre essas duas realidades distintas, embora alguns idealistas julgassem essa separação possível de ser rompida mediante a perseguição do belo, do bom e do justo nesse mundo, o que significava se aproximar do modelo utópico de sociedade desenvolvida por Morus. Daí o esforço de intelectuais, políticos, cristãos para dar cabo da injustiça, da desigualdade, do conflito numa época propensa a esses problemas por conta do capitalismo. Logo esses intelectuais, políticos, cristãos, foram acusados de utópicos, pois suas investidas teóricas apenas remediavam as crises, mas não davam conta de superá-las, visto que teorizavam o não teorizável, o virtual, ao invés de partirem do real, do concreto (MARX, ENGELS, 2000).
Como vimos à imbricação entre o real e o virtual se faz presente em inúmeras discussões, sejam elas teológicas, filosóficas, políticas, pondo em contraste o objetivo, do subjetivo, o físico, do metafísico. Se o virtual é antes subjetivo, metafísico, faz-se necessário uma investigação nas bases antropológicas desse sujeito arquiteto de mundos (i)rrealizáveis, (im)possíveis, que antes de ser objeto de desfrute e deleite para os outros o é para ele. Portanto, analisaremos a imagem de si construída pelo homem a partir de três modelos: o modelo de homem teocêntrico, o modelo de homem antropocêntrico e, por fim, o modelo de homem egocêntrico.
Dois modelos alienantes: o homem teocêntrico e o homem egocêntrico
(...) Agora o homem tudo sabe, sobre este e o outro mundo. Tem tanta razão que desvenda os fetiches que ele próprio recria e recria, no cotidiano do dia-a-dia. Mas se reconhece aquém e além dessa razão. Descobre que o seu entendimento não o emancipa de si, do que é como fabulação. Com o fetichismo das suas relações sociais, entroniza visões e fantasmas, nos quais se conhece e desconhece, que alegram e o assustam. (IANNI, 1989, p. 21).
Primeiramente é inquestionável que esse homem arquiteto de si, de mundos para si é o produto de seu tempo, logo é o mesmo que compreendeu ser ele a imagem e semelhança de Deus, portanto, sua cosmovisão holística julgava a imagem de si concernente à vontade d’Ele. A graça e a desgraça, o belo e o feio, a pobreza e a riqueza, a aptidão e a inaptidão faziam parte de um bojo hermenêutico próprio da religião. Esse homem é subjugado, comprimido por vontades externas a ele próprio (VERNANT, 1988), é enquadrado em limites estruturais cosmogônicos dados pela manifestação teogônica. A mitologia hebraica, grega e romana é exemplificam isso.
A filosofia grega nasce no berço dessa mitologia e por isso não produziu um rompimento abrupto nessa concepção de sujeito e de mundo, visto que séculos mitológicos deixaram marcas indeléveis, as quais serão transferidas para o Império Romano Cristão, e sustentadas pelos argumentos dos padres da igreja, tais como: Agostinho, Jerônimo, Eusébio etc. A mudança nesse sentido dá-se apenas no que se refere à concepção monoteísta do cristianismo. O dogma católico sustentou que esse homem e esse mundo eram à imagem e semelhança de Deus e esse homem aceitou que era, sim, à imagem e semelhança desse Deus.
A Reforma Protestante, no século XVI, ao enfatizar à livre interpretação das sagradas escrituras abriu possibilidades desse homem forjar uma nova imagem de si. Com essa possibilidade a Europa experimentou não apenas um reforma moral no clero, mas uma revolução subjetiva do homem, a qual invariavelmente traria, mais dia menos dia, uma revolução objetiva preconizada por teóricos políticos, como, por exemplo: Hobbes, o qual não via com bons olhos essa livre interpretação da Bíblia (FOUCAULT, 1979). Gramsci dirá (...) da Reforma Protestante, decorreu a filosofia clássica alemã e o vasto movimento cultural de onde nasceu o mundo moderno (GRAMSCI citado por SCHLESENER, 2007, p. 69). E é justamente da filosofia clássica alemã que surge o primeiro golpe a essa imagem de homem centrado na imagem de Deus. Ludwig Feuerbach (1989) dirá que não foi Deus que criou o homem, mas o homem criou Deus e transferiu a esse ser criado tudo o que ele não é, ou não consegue ser. Deus, portanto, seria a projeção exterior do desejo de perfeição do homem. Contudo, com isso o homem se aliena, pois cede a outro algo particular dele. O homem fez Deus à sua imagem e semelhança.
Dessa investida teórica feuerbachiana outros autores se apropriarão, Marx (MARX, ENGELS, 2000), por exemplo, dirá que a religião é o suspiro da criatura oprimida pelas forças econômicas e aplicará o conceito de alienação ao modo de produção. Contudo, será Nietzsche (2001) ao final do século XIX que salientará a urgência de uma nova imagem de homem, o qual refutará ser a imagem de outro, mas assumirá sua própria condição demasiadamente humana, ou seja, assumirá seus defeitos e não se eximirá de suas responsabilidades. Esse homem será denominado o Ubermach, o Super Homem. Esse novo homem tirará Deus do centro e em seu lugar colocará a si próprio.
No entanto, esse antropos está em constante mudança de imagem, como um camaleão se integrando às superfícies em que se assenta. Mais do que isso, pretende não apenas se adequar ao contexto de seu tempo e de sua superfície, mas, também, dominar esse ambiente por meio da dominação da própria imagem que tem de si (MACHADO, 2001, p. 72). Não aceitará ser a imagem e semelhança de Deus, visto que, agora, julga-a repleta de inúmeros defeitos estéticos e morais. Por conta disso, alterará substancialmente sua estrutura física pelas vias objetivas e, portanto, reais. Recorrerá, então, as mais diferentes cirurgias. Também fará alterações de ordem subjetivas e, consequentemente, virtuais: construirá um avatar de si mesmo. Esse avatar é fabricado a partir do eidolon na busca do homem pela aparência das coisas (CHAUÍ, 1988, p. 35). Sua representação se transforma em seu próprio ídolo, tal como o personagem Dorian Gray criado por Oscar Wilde.
Essa discussão, no entanto, se dará somente ao final do século XX e início do XXI com as inúmeras possibilidades quiméricas da inteligência artificial. Se esse homem não é mais a imagem e semelhança de Deus, como sustentava o dogma cristão, também não é mais a imagem e semelhança dele mesmo, como sustentava Nietzsche. Para tanto esse ser humano forjará um deus a partir de si mesmo, com uma imagem paulatinamente alterada em seu exterior até tornar-se perfeita.
Como dito anteriormente, essa imagem pode ser forjada a partir do real: um corpo igual à daquela pessoa modelo, que por sua vez emprestou de outra pessoa modelo, as quais, portanto, receberam corpos que não são legítimos, nem particulares, mas padronizados. Cirurgiões plásticos possuem modelos de narizes, orelhas, bocas, corpos dos mais variados gostos, pois, afinal, gosto não se discute (HUME, 1987).
O ser humano odeia sua condição estética e moral e tal qual Pigmaleão forja um modelo pelo qual possa se apaixonar. Esse modelo pode também ser forjado no virtual, nas páginas de redes sociais, as quais esperam um usuário obviamente sociável que inaugure sua rede de “amigos”. Nas páginas dessas redes as fotos pessoais são manipuladas por softwares de edição de imagens para diminuir, aumentar, ou consertar qualquer aparência física a ponto de escolher com que corpo quer se apresentar (KEHL, 2004).
Além da preocupação estética esses usuários também se preocupam com questões éticas e, nas próprias redes sociais, defendem causas reais, como, por exemplo: preservação ambiental, desarmamento etc; contudo, sem aderir materialmente à causa. Ademais, constroem perfis adequados, onde se destacam os feitos e a visão triunfalista da vida. O que não é bom, ou demasiado humano, se esconde. Sócrates enunciava a necessidade de se conhecer a si mesmo como fundamento da sabedoria, mas nenhum usuário está disposto a evocar seus inúmeros defeitos numa rede social. Leandro Konder, em um artigo intitulado “Curriculum Mortis e a reabilitação da autocrítica”, propõe algo parecido com o do filósofo grego. Ao invés de destacarmos apenas o sucesso, que destaquemos os insucessos para testar nossa popularidade, e ver se a mesma se mantém.
As discussões feitas aqui se propuseram a uma investigação entre os limites da realidade e virtualidade no imaginário do homem, por isso esse exercício antropológico em caracterizar historicamente três modelos forjados pelo próprio homem para se enquadrar no contexto social de sua época. No primeiro modelo, segundo Feuerbach, o homem criou uma imagem dele em (des)conformidade com a imagem que ele criara para Deus: uma imagem teocêntrica e alienante; no segundo modelo, conforme Nietzsche, o homem se emancipa pela concepção de que ele é a sua própria imagem e semelhança, nesse caso, a imagem antropocêntrica é libertadora; por fim, no terceiro modelo o homem fez da imagem de homem criada e idealizada por ele o próprio homem, nesse caso, o egocentrismo é novamente alienante.
Uma das explicações para esse pêndulo quanto à imagem assumida pelo homem no decorrer dos tempos, é o fato de que este se desapaixonou de sua imagem, em contraposição a Narciso na mitologia grega. Quando o Ubermach se emancipou e assumiu seus erros e virtudes, percebeu que existiam mais erros do que necessariamente virtudes, mais feiúras do que belezas. Chocou-se então com essa condição libertária a ponto de querer se alienar novamente numa imagem forjada no mundo virtual da inteligência artificial. Jogos de computador e filmes também corroboram para a insistente busca por outro modelo de nós mesmos. O filme de James Cameron Avatar suscitou discussões nos EUA, pois o personagem principal é paraplégico na vida real, mas ganha a reabilitação dos membros com seu avatar.
A característica alienante desse homem egocêntrico dá-se pela escusa em escrever o próprio roteiro, como considera Bauman (2001) e, também, assumir a própria imagem. Seus subterfúgios servem para transferir responsabilidades e idealizar um ser perfeito, sem medos, defeitos e culpas. Difere do homem alienado feuerbachiano apenas no que se refere ao caráter religioso. Se o primeiro modelo de homem alienado projetava em Deus tudo aquilo que ele não era, agora o homem egocêntrico projeta num ser virtual, seu avatar, da mesma forma tudo aquilo que ele não é. Seu individualismo permite a criação desse mundo virtual propenso a colocá-lo no centro de seu próprio desejo.
0 comentários:
Postar um comentário