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quinta-feira, 6 de março de 2014

PROTESTANTES PRESBITERIANOS BRASILEIROS NO SÉCULO XIX: O QUE LIAM EM TERMOS DE ECONOMIA?





ASPECTOS HISTÓRICO-SOCIAIS NO BRASIL DO SÉCULO XIX

O presbiterianismo em terras brasileiras tem seu marco com a chegada de Ashbel Green Simonton no Rio de Janeiro em 1858, um jovem missionário que pretendia implantar o presbiterianismo. Simonton era da missão norte dos Estados Unidos – os boards de Nova Iorque. A partir da década de 1860 chegaram os imigrantes da região sul dos Estados Unidos e alguns anos depois o Comittee de Naschville – junta missionária da igreja sulista. Com a chegada desses missionários estadunidenses muitos se empenharam em estabelecer contato com as elites da cidade de São Paulo que anelavam uma mudança política. A partir desses contatos os protestantes presbiterianos entendem que uma das melhores estratégias era a concentração de forças para o surgimento e o estabelecimento de instituições de ensino. Dessa maneira visavam educar a nova geração de brasileiros para que esta adquirisse uma moral protestante. Daí o surgimento do colégio internacional (1869) e da escola americana (1870).

Nesse período também se observa um constante crescimento industrial e segundo Moniz Bandeira (2007) foram essas novas forças de produção com capital estrangeiro que tornaram o império obsoleto, tal qual o engenho de açúcar movido à força de bois e do trabalho de escravos. Diante desse quadro social: pressão da economia mundial, agitação e fuga em massa de negros é que se deu a abolição da escravatura que ao invés de salvar a monarquia apenas principiou sua queda. A abolição foi o prelúdio da república.

Após a proclamação da república houve forte sentimento nacionalista acompanhado, contraditoriamente, de uma americanização do país. A resposta crítica ao novo modelo político adotado partiu da imprensa e de homens, tais como: Joaquim Nabuco e Eduardo Prado. Este último publicou no final de 1893, num momento propício para a manifestação do sentimento antiamericano o livro A Ilusão Americana, no qual tece uma crítica contundente ao sistema republicano, à cultura e à religião protestante. Segundo ele tanto a religião quanto a cultura estadunidense não se coadunavam com elementos da cultura e da religião brasileira (PRADO, 1893).

A partir dessas evidentes tensões o pequeno grupo de presbiterianos brasileiros articula instrumentos mais eficazes para influenciar as discussões e não limitam suas atividades meramente ao serviço religioso. As propostas tratam sobre a questão econômica do país, sobre educação, sobre aspectos jurídicos da nova constituição republicana etc., e a partir dessas propostas é possível compreendermos a concepção de ordem social no pensamento presbiteriano na época. Por serem questões tratadas na esfera pública era de se esperar que o presbiterianismo brasileiro pusesse a serviço da causa homens preparados que poderiam contribuir para a legitimação desse grupo social.

A LEITURA BÁSICA DE UM PROTESTANTE PRESBITERIANO NO SÉCULO XIX: O OPÚSCULO DO FUTURO DOS POVOS CATÓLICOS: UM ESTUDO DE ECONOMIA SOCIAL

O protestantismo brasileiro em seu início buscou constantemente se legitimar na sociedade brasileira e, por conta disso, as obras produzidas pelos protestantes eram de cunho polemista. Os livros a serem traduzidos também passavam por esse crivo e de tantas obras que poderíamos destacar escolhemos o opúsculo Do futuro dos povos católicos: um estudo de economia social do economista belga Émile Louis Victor de Laveleye por ter ele algumas características importantes: 1) a tradução foi feita pelo presbiteriano Miguel Ferreira Vieira que é listado como um dos republicanos brasileiros históricos; 2) a tese levantada por Laveleye de que era a religião e não a raça a determinante pelo atraso econômico-social dos povos será contestada por alguns teóricos sociais brasileiros no início do século XX nas discussões ideológicas sobre branqueamento da população brasileira; 3) o livro foi amplamente divulgado pelos protestantes e/ou pelos liberais brasileiros que anelavam uma mudança no sistema econômico do país.

A tese do livro de que o não-desenvolvimento das nações católicas tinha uma relação direta com a religião romana agradou tanto os protestantes brasileiros, quanto alguns intelectuais que viam um nexo entre protestantismo e modernidade. Um dos pontos mais importantes na tese de Laveleye tem relação com o método comparativo usado pelo mesmo onde ele analisa diferentes populações católicas e protestantes primeiramente numa mesma região e depois em regiões diferentes, assim expõe como se opera o desenvolvimento dos protestantes em relação aos católicos. Um exemplo interessante disso é a comparação feita entre os protestantes da região suíça de Vaud e os católicos de Lucerna. Segundo Laveleye os primeiros se desenvolviam consideravelmente em várias áreas, tais como indústria, comércio e instrução, e eram latinos, já os católicos de Lucerna não acompanhavam esse desenvolvimento e eram germânicos (LAVELEYE, 1944).

Essas teses foram amplamente divulgadas no Brasil por meio da imprensa, muitos líderes protestantes fizeram comentários sobre o texto, assim como trechos da obra foram disponibilizadas nos jornais. Dentre esses líderes o pastor presbiteriano Eduardo Carlos Pereira compreendeu o ponto nevrálgico do texto e defendeu que a causa de nosso atraso não tinha relação com a raça, antes com a cultura religiosa da maioria do povo brasileiro. A tese de Laveleye perdurou por muito tempo nessa discussão religiosa polarizada no Brasil entre protestantes e católicos e a mesma foi retomada por Pereira na década de 1920 em seu livro O problema religioso da América Latina, no qual levantou polêmica com religiosos católicos da época.

ALGUMAS REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. Presença dos Estados Unidos no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007. 682p.
PRADO, Eduardo. A ilusão americana. São Paulo: Alfa-Ômega, 1893.
LAVELEYE, Emile. Do futuro dos povos católicos. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1944.

domingo, 16 de junho de 2013

''O Deus da Bíblia não faz política''. Entrevista com Michael Walzer

 














"A Bíblia é fonte de ensinamento moral, mas é um erro procurar nela exemplos de escolhas políticas às quais se referir". A essa conclusão chegou o sociólogo e cientista político da Universidade de Princeton Michael Walzer, de origem judaica, voz de autoridade da esquerda norte-americana, no seu novo livro In God’s Shadow (À sombra de Deus), publicada pela Yale University Press.

A reportagem é de Maurizio Molinari, publicada no jornal La Stampa, 10-09-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Por que você decidiu se ocupar desse assunto?

Eu trabalhava sobre esse há 20 anos, aplicando à Bíblia a "teoria da recepção" alemã, ou seja, para compreender como o texto foi interpretado ao longo dos séculos. É um esforço para chegar a definir o que os autores da Bíblia pensavam sobre a política.

Você se detém na contraposição entre os dois pactos, de Abraão e do Sinai, e os três códigos de Levítico, Deuteronômio e Êxodo, falando de "respeito pelos atritos". É a base do pluralismo?

Os dois pactos estão em competição. Pensemos nas conversões. Para o pacto do Sinai, aderir é possível porque basta aceitá-lo, enquanto o pacto familiar de Abraão o oposto é verdadeiro. Essa tensão se encontra novamente ao longo de toda a história judaica.

E os três códigos?

Eles têm uma identidade separada, mas são todos expressão de Deus, e, portanto, é impossível conciliá-los. Isso explica porque os reis não legislam, e é aí que se encontra a gênese do pluralismo que permeia todo o mundo judeu.

Por que no capítulo sobre a "guerra santa" você cita Rousseau, segundo o qual "quanto mais forte é a união, maior é o inimigo"?

As regras da guerra, como aniquilar os cananeus, estão no Deuteronômio, ou seja, o livro mais comunitário que contém as normas detalhadas sobre a preocupação mútua. Portanto, há uma estranha conexão entre a máxima atenção pela coesão interna e a maior hostilidade para com o outro.

Por que você descreve os reis como uma "resposta à teocracia"?

Os reis são uma rejeição do governo divino. Há uma contraposição entre o reino do soberano e o de Deus.

Por que os profetas não se tornam líderes políticos?

Eles nunca formaram um movimento. Algo do tipo começa somente em Roma, com os movimentos plebeus. Os profetas são críticos morais, até mesmo poderosos, mas que não têm seguidores. Criticam o rei, a oligarquia e quaisquer outros. A profecia é vocação moral, embora tenha consequências políticas.

Os autores da Bíblia não deram importância à política como modo de vida, mas a situação mudou com a deportação para a Babilônia. A descoberta da política ocorre na Diáspora?

Na Babilônia, os rabinos substituem os reis. Não há grande interesse pela política entendida como definição na assembleia das responsabilidades dos cidadãos. Tudo isso nasce com os gregos. Para os judeus, a legislação na Babilônia refere-se à interpretação dos textos. Há mais interpretação do que representação, porque a origem da lei é Deus.

Quais foram as consequências dessas premissas bíblicas sobre a formação do Estado de Israel?

O sionismo é a negação do exílio, e, como o judaísmo era uma fé do exílio, tratou-se da negação do judaísmo, zerando 2.000 terríveis anos para voltar às raízes da Bíblia. Por isso, nas origens do sionismo está o compromisso de estudar a Bíblia ou matérias como a arqueologia. Mas a forma do Estado, ao invés, é uma imitação das democracias europeias.

Por que durante a Diáspora os judeus "imaginaram voltar a Israel liderados por reis e não por profetas"?

Ao longo dos séculos, a expectativa é pelo rei-messias. Nissim Gerondi, que viveu na Espanha nos séculos XIII-XIV, afirma que o rei foi criado porque a lei é perfeita demais para a população, e, portanto, é preciso um rei para violá-la, para torná-la acessível aos indivíduos, em situações de crise ou de emergência. É um texto maquiavélico cerca de 200 anos antes de Maquiavel: ele explica por que a monarquia continua sendo o regime político preferido até que, no século XIX, os judeus iluminados optariam pela democracia moderna. Por isso, o sionismo foi uma doutrina revolucionária. Ele não previa a restauração dos reis.

Por que você volta frequentemente à citação de Ben Sira sobre o fato de que "um homem sábio é aquele que é cauteloso sobre tudo"?

Ben Sira representa a continuação da Bíblia, depois dos Provérbios. Ele se detém em fazer o bem na vida privada, enquanto no Livro dos Provérbios há muito sobre fazer o bem na vida pública e em particular sobre a ideia de prudência conectada à sabedoria. É a ligação entre a Bíblia e o que se seguiu.

Quais são as lições que os líderes políticos contemporâneos podem extrair dessa análise da Bíblia judaica?

Não procurar no texto da Bíblia indicações precisas sobre os comportamentos a se ter na vida pública, porque seriam quase certamente errados. Na Bíblia, ao contrário, há o aspecto moral do ensinamento: a busca da justiça, a atenção pelos necessitados. E isso explica porque um movimento pela justiça, como o de Martin Luther King, pode invocar a advertência bíblica de que todos os seres humanos foram criados iguais.

FONTE: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/513461-o-deus-da-biblia-nao-faz-politica

sábado, 22 de setembro de 2012

CARTA ENCÍCLICA «RERUM NOVARUM» DO PAPA LEÃO XIII SOBRE A CONDIÇÃO DOS OPERÁRIOS


Rerum Novarum: sobre a condição dos operários é uma encíclica escrita pelo Papa Leão XIII no final do século XIX. Era uma carta aberta aos líderes da igreja católica, na qual debatia as condições das classes trabalhadoras durante a revolução industrial. A carta, basicamente, defende reformas na sociedade, no entanto, repudia as ideias socialistas, principalmente o antagonismo de classe. O pontífice julgava serem necessários alguns ajustes na sociedade de então, que, segundo ele, fazia parte de uma “coisa nova”. Os ajustes diziam respeito, por exemplo, às novas relações de trabalho, tais como: melhores condições laborais para os proletários, assim como melhores salários. No entanto, defendia plataformas burguesas, sobretudo, à propriedade privada que, segundo a encíclica, pertencia a um conjunto de aspectos jusnaturalistas. De certa forma, as reformas não pretendiam deixar marcas indeléveis na sociedade, pois o projeto consistia mais em recuperar na sociedade princípios cristãos, tais como: fraternidade e solidariedade; do que agir objetivamente. Por conta disso, entendemos que a encíclica tinha como finalidade última evitar um levante social proletário.

Vejamos alguns trechos:

Causas do conflito
2. Em todo o caso, estamos persuadidos, e todos concordam nisto, de que é necessário, com medidas prontas e eficazes, vir em auxílio dos homens das classes inferiores, atendendo a que eles estão, pela maior parte, numa situação de infortúnio e de miséria imerecida. O século passado destruiu, sem as substituir por coisa alguma, as corporações antigas, que eram para eles uma protecção; os princípios e o sentimento religioso desapareceram das leis e das instituições públicas, e assim, pouco a pouco, os trabalhadores, isolados e sem defesa, têm-se visto, com o decorrer do tempo, entregues à mercê de senhores desumanos e à cobiça duma concorrência desenfreada (...).

Contextualização:
Esse trecho da encíclica discorre sobre o programa capitalista que prevê a concorrência entre os homens em prol do lucro. Questiona o espírito moderno que relegou aos homens princípios de não-cooperação, ademais, expõe que o sentimento religioso desapareceu das instituições públicas. Quanto a isso devemos considerar que o Papa estava desaprovando em completo a laicização do estado, política amplamente aprovada pelos protestantes (HABERMAS, 1984). Para Leão XIII a separação entre estado e igreja implicava, além da perda de poder político por parte da igreja, a secularização dos costumes dos indivíduos que uma vez “libertos” da tutela da igreja poderiam questionar ainda mais a tradição, sustentáculo da igreja católica. Isso reflete o quanto o catolicismo permaneceu irredutível ao liberalismo político e religioso que já havia seduzido os protestantes (BERGER, 1996). Outro traço importante do pensamento da igreja católica nessa época é de que, embora clamassem por uma maior solidariedade entre os homens, pugnavam pela manutenção do tecido social, visto que defendiam a estratificação social entre classes superiores e classes inferiores.

Obrigações dos operários e dos patrões
10. Entre estes deveres, eis os que dizem respeito ao pobre e ao operário: deve fornecer integral e fiel-mente todo o trabalho a que se comprometeu por contrato livre e conforme à equidade; não deve lesar o seu patrão, nem nos seus bens, nem na sua pessoa; as suas reivindicações devem ser isentas de violências e nunca revestirem a forma de sedições; deve fugir dos homens perversos que, nos seus discursos artificiosos, lhe sugerem esperanças exageradas e lhe fazem grandes promessas, as quais só conduzem a estéreis pesares e à ruína das fortunas.
Quanto aos ricos e aos patrões, não devem tratar o operário como escravo, mas respeitar nele a dignidade do homem, realçada ainda pela do Cristão. O trabalho do corpo, pelo testemunho comum da razão e da filosofia cristã, longe de ser um objecto de vergonha, honra o homem, porque lhe fornece um nobre meio de sustentar a sua vida. O que é vergonhoso e desumano é usar dos homens como de vis instrumentos de lucro, e não os estimar senão na proporção do vigor dos seus braços. O cristianismo, além disso, prescreve que se tenham em consideração os interesses espirituais do operário e o bem da sua alma. Aos patrões compete velar para que a isto seja dada plena satisfação, para que o operário não seja entregue à sedução e às solicitações corruptoras, que nada venha enfraquecer o espírito de família nem os hábitos de economia. Proíbe também aos patrões que imponham aos seus subordinados um trabalho superior às suas forças ou em desarmonia com a sua idade ou o seu sexo.
Mas, entre os deveres principais do patrão, é necessário colocar, em primeiro lugar, o de dar a cada um o salário que convém. Certamente, para fixar a justa medida do salário, há numerosos pontos de vis-ta a considerar. Duma maneira geral, recordem-se o rico e o patrão de que explorar a pobreza e a miséria e especular com a indigência, são coisas igualmente reprovadas pelas leis divinas e humanas; que comete-ria um crime de clamar vingança ao céu quem defraudasse a qualquer no preço dos seus labores: «Eis que o salário, que tendes extorquido por fraude aos vossos operários, clama contra vós: e o seu clamor subiu até aos ouvidos do Deus dos Exércitos»(6). Enfim, os ricos devem precaver-se religiosamente de todo o acto violento, toda a fraude, toda a manobra usurária que seja de natureza a atentar contra a economia do pobre, e isto mais ainda, porque este é menos apto para defender-se, e porque os seus haveres, por serem de mínima importância, revestem um carácter mais sagrado. A obediência a estas leis — pergunta-mos Nós — não bastaria, só de per si, para fazer cessar todo o antagonismo e suprimir-lhe as causas?
11. Todavia a Igreja, instruída e dirigida por Jesus Cristo, eleva o seu olhar ainda para mais alto; propõe um conjunto de preceitos mais completo, porque ambiciona estreitar a união das duas classes até as unir uma à outra por laços de verdadeira amizade. Ninguém pode ter uma verdadeira compreensão da vida mortal, nem estimá-la no seu devido valor, se não se eleva à consideração da outra vida que é imortal. Suprimi esta, e imediatamente toda a forma e toda a verdadeira noção de honestidade desaparecerá; mais ainda: todo o universo se tornará um impenetrável mistério (...).
Não, Deus não nos fez para estas coisas frágeis e caducas, mas para as coisas celestes e eternas; não nos deu esta terra como nossa morada fixa, mas como lugar de exílio. Que abundeis em riquezas ou outros bens, chamados bens de fortuna, ou que estejais privados deles, isto nada importa à eterna beatitude: o uso que fizerdes deles é o que interessa (...).

Contextualização:
Esse trecho da encíclica é uma das que mais expressam o pensamento teológico da igreja católica em relação às classes sociais, visto que as citações estão impregnadas de uma análise à luz das fontes bíblicas, principalmente na compreensão neotestamentária sobre obediência e servidão. Quanto a isso podemos fazer alusão à epístola a Filemom. Nessa epístola o apóstolo Paulo escreve para Filemom, proprietário do escravo Onésimo, que havia fugido. Ao que tudo indica os dois eram cristãos convertidos e Paulo, portanto, admoesta Onésimo que volte ao seu senhor e lhe obedeça, por sua vez, recomenda que Filemom trate Onésimo com amor, visto que os dois agora são irmãos na fé. Essa compreensão do Papa visa refutar ou amenizar os próprios escritos marxianos que compreendiam a história das sociedades como uma constante luta entre classes (MARX; ENGELS, 2008).
Outro ponto importante na epístola é a menção do trabalho degradante ao qual eram submetidos não apenas os proletários, mas, também, mulheres e crianças. Quanto a esse tema o Papa não se afasta da compreensão medieval de que o trabalho era punição para o homem pecador, instrumento de Deus para punir e educar os corpos. Isso, de certa forma, não se coaduna com o espírito da época moderna, o qual atribuirá ao estado a tarefa adestradora dos corpos, como bem analisou Foucault (1979).
Por fim, Leão XIII exorta os fiéis católicos que se orientem pelas benesses celestes e não com as terrestres, ou seja, toda esperança de plena satisfação e felicidade humana reside na perspectiva do paraíso prometido por Deus, enquanto não contemplamos esse desígnio nos resta abdicar de interesses que excedam essa esperança.

Dignidade do trabalho
13. Quanto aos deserdados da fortuna, aprendam da Igreja que, segundo o juízo do próprio Deus, a pobreza não é um opróbrio e que não se deve corar por ter de ganhar o pão com o suor do seu rosto. É o que Jesus Cristo Nosso Senhor confirmou com o Seu exemplo. Ele, que «de muito rico que era, Se fez indigente» (18) para a salvação dos homens; que, Filho de Deus e Deus Ele mesmo, quis passar aos olhos do mundo por filho dum artesão; que chegou até a consumir uma grande parte da Sua vida em trabalho mercenário: «Não é Ele o carpinteiro, o Filho de Maria?» (19). Quem ti-ver na sua frente o modelo divino, compreenderá mais facilmente o que Nós vamos dizer: que a verdadeira dignidade do homem e a sua excelência reside nos seus costumes, isto é, na sua virtude; que a virtude é o património comum dos mortais, ao alcance de todos, dos pequenos e dos grandes, dos pobres e dos ricos; só a virtude e os méritos, seja qual for a pessoa em quem se encontrem, obterão a recompensa da eterna felicidade. Mais ainda: é para as classes desafortunadas que o coração de Deus parece inclinar-se mais. Jesus Cristo chama aos pobres bem-aventurados (20): convida com amor a virem a Ele, a fim de consolar a todos os que sofrem e que choram(21); abraça com caridade mais terna os pequenos e os oprimidos. Estas doutrinas foram, sem dúvida alguma, feitas para humilhar a alma altiva do rico e torná-lo mais condescendente, para reanimar a coragem daqueles que sofrem e inspirar-lhes resignação. Com elas se acharia diminuído um abismo causado pelo orgulho, e se obteria sem dificuldade que as duas classes se dessem as mãos e as vontades se unissem na mesma amizade.

Contextualização:
Num primeiro momento esse trecho parece contrapor-se ao comentado anteriormente, pois, neste, o Papa Leão XIII destaca o trabalho como atributo da dignidade humana e cita, inclusive, Jesus como um exemplo a ser seguido que, mesmo sendo o filho de Deus, trabalhou dignamente com seu pai, José. Leão XIII não propõe com isso uma ruptura na interpretação católica do conceito trabalho como punição – visto que trabalho como dádiva está associado mais ao protestantismo puritano, como discutiu Weber em A ética protestante e o espírito do capitalismo (2006) –, obviamente, esse trecho é uma exortação moral aos fiéis para que estes se mantenham em seus respectivos empregos. Isso era fundamental para que o aspecto de coesão se sobrepusesse ao aspecto de contradição social cada dia mais latente no corpo social. O trabalho, nesse trecho, é o elo que garante a renda – embora insuficiente – do proletário e o distancia das convulsões sociais. A solução, embora paliativa, tinha como principal objetivo frear os ímpetos dos proletários católicos que, insatisfeitos com suas condições de trabalho, aderiam às ideias comunistas.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BÍBLIA SAGRADA: Nova Tradução na Linguagem de Hoje. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2000.

BERGER, Peter. Rumos de anjos: a sociedade moderna e a redescoberta do sobrenatural. Petrópolis. RJ: Vozes, 1996.

FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979.

HABERMAS, Jürgen. Mudança estrutural da esfera pública: investigações quanto a uma categoria da sociedade burguesa. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1984.

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. São Paulo: Martin Claret, 2000.

WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: Pioneira, 1967.

DOCUMENTOS DA IGREJA CATÓLICA APOSTÓLICA ROMANA

LEÃO XIII. Encíclica: RERUM NOVARUM. (1891) Disponível em:  http://www.vatican.va/holy_father/  leo_xiii/encyclicals/documents/hf_lxiii_enc_ 15051891_rerum-novarum_po.html. Acesso em: 20 set. 2012.
 

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Garth Ennis e os temas religiosos

ÀS VOLTAS COM a leitura de um jornal de 1893 e a digitação de um livro de 1938 não sobra muito tempo para ver o mar, já dizia o poeta - no meu caso o rio cachoeira mesmo. Porém nem tudo são farpas nessa vida: já tomei dois litros de água, uns dez copos de café com leite e lavei o rosto umas três vezes. Entre os intervalos peguei uma revista em quadrinho para estorvar esse academicismo barato e resolvi fazer essa pequena postagem sobre Garth Ennis – visto que ele é o roteirista de todas as HQ’s que possuo.

Tenho predileção pelo roteiro de Ennis devido a sua familiaridade com os temas religiosos. Considero que o fato de ter nascido na Irlanda do Norte contribua para isso, visto que Troubled Souls retrata um pouco a rotina de se viver num país em guerra religiosa.

Além dessa história abordando a religião, Ennis fez alguns roteiros para a série Hellblazer e tratou muito bem os conflitos de John Constantine. Também contou a história do assassino de aluguel Hitman que, como se não bastasse os perigos de Gothan, excursiona entre as dimensões: inferno, terra, entende?

Contudo, sua principal obra até a presente data é PREACHER que conta a história de um pregador estadunidense.

Não abordei outros trabalhos de Ennis, somente os quadrinhos com um pano de fundo religioso.
Abaixo você pode conferir algumas HQ’s de Garth

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

NUPPER - Núcleo Paranaense de Pesquisa em Religião


Dia 16 e 17 acontece o V Seminário - Religião e Sociedade - o espaço do sagrado no século XXI na Faculdade Teológica Batista do Paraná. Vários pesquisadores estarão apresentando trabalhos, dentre os quais estará o meu trabalho de pesquisa.


Segue a lista das apresentações.


terça-feira, 20 de maio de 2008

Simpósio Internacional sobre Teologia Pública na América Latina

No atual momento de repensar as prioridades na teologia e de enorme diversificação nas posturas ante os problemas levantados pela sociedade, a cidadania e o compromisso com a realidade continuam se impondo como temas fundamentais. Dentro da linha aberta pela Teologia da Libertação, a Teologia Pública vem se tornando um espaço de debate e aprofundamento sobre o lugar relevante da teologia na busca de um mundo mais solidário e justo. Teólogos e Teólogas em diferentes partes do mundo têm dado atenção a essa necessidade de pensar a participação política e a cidadania à luz de valores éticos e humanizantes, apontando para a relação inevitável entre fé e cidadania, objeto de uma teologia necessariamente pública. A partir de sua dimensão pública, a teologia interage de forma especial com a sociedade, a universidade, e a cultura e, por conseqüente, com os campos de saber que as estudam nelas atuam.

Data do Evento: 04/07/2008 a 07/07/2008
Local: Faculdades EST
Público AlvoProfessores(as), pesquisadores(as) e estudantes de teologia, filosofia, ciências sociais aplicadas e áreas afins, militantes da sociedade civil e lideranças em geral.

ObjetivosExplorar o conceito e as implicações de uma teologia pública na América Latina, ao mesmo tempo global e contextualizada.
Objetivos específicos:

Apresentar uma reflexão teórica concentrada sobre o conceito de teologia pública, em interação com outros campos de saber.
Explorar, em interação com outros contextos, nomeadamente a África do Sul, possibilidades de uma teologia pública crítico-construtiva.

Contribuir, no âmbito acadêmico, com recursos teológicos para o debate entre as ciências e a sociedade acerca de valores éticos a partir de uma religião específica, sem desconsiderar o caráter laico do estado e o pluralismo religioso vigente no país.
InscriçõesInvestimento:
Sem inscrição de Comunicação - R$ 60,00
Com inscrição de Comunicação - R$ 100,00Clique aqui para fazer a sua inscrição.

Mais InformaçõesComunicações científicas. As apresentações de comunicações serão realizadas dentro das 3 linhas temáticas, sob coordenação dos respectivos responsáveis:

Teologia e sociedade. Coord. MS Antonio Carlos Teles da Silva.
Teologia e Universidade. Coord. MS Ana Formoso Gallaraga.
Teologia e Cultura. Coord. Dr. Joe Marçal Filho.


Os resumos das comunicações deverão ser enviados junto com as inscrições até o dia 30 de maio de 2008, devendo constar de no máximo 20 linhas. A confirmação dos trabalhos selecionados será feita até o dia 20 de junho para confirmação das inscrições, e envio dos textos completos para publicação em CD.O processo de inscrição e envio dos resumos deverá ser feito pelo site através da ficha de inscrição.

Proposta inicial de programação (a confirmar).4 de julho de 2008, sexta-feira
09.00 Abertura solene: Prof. Dr. Oneide Bobsin, Reitor da Faculdades ESTProf. Dr. Marcelo Fernandes de Aquino, Reitor da UnisinosProf. Dr. Inácio Neutzling, Diretor do Instituto Humanitas, UnisinosProf. Dr. Rudolf von Sinner, Pró-Reitor de Pós-Graduação e Pesquisa da Faculdades EST.
10.00 Prof. Dr. Max Stackhouse, Princeton:“Public Theology in the 21st Century” (com tradução simultânea)
12.00 Almoço
14.00 Comunicações (responsável: Ms. Antonio Carlos Teles da Silva, EST).
16.00- 18.00Mesa-Redonda: Teologia e SociedadeProf. Dr. Nico Koopman, Stellenbosch/África do SulProf. Guillermo Steinfeld, ISEDET/ArgentinaProf.ª Dr.ª Catalina Romero, Universidade Católica, Lima/PeruModeração: Prof. Dr. Rudolf von Sinner, EST
18.30 Janta
19.30- Conferências: Teologia e Sociedade
20.30 Prof.ª Dr.ª Paula Montero, USP-SPProf. Dr. Luiz Carlos Susin, PUC-RS.5 de julho de 2008, sábado
08.30- 10.30Conferências: Teologia e UniversidadeProf. Dr. Marcelo Fernandes de Aquino, Reitor da Unisinos.
10.30 Cafézinho
11.00 Parceria de pesquisa – debate aberto
12.30 Almoço
14.00 Comunicações (responsável: Prof.ª Ms. Ana Formosa, Unisinos)
16.00- 18.00Mesa-Redonda: Teologia e Universidade.Prof. Dr. Érico João Hammes, PUC-RSProf. Dr. Lauri E. Wirth, UMESPProf. Dr. Júlio Paulo Tavares Zabatiero, FUV/ESTModeração: Prof. Dr. Valério G. Schaper, EST
19.00 Noite com janta típica6 de julho de 2008, domingomanhã livre, possibilidade de participação em cultos religiosos
12.30 Almoço
14.00 Comunicações (resp. Dr. Joe Marçal dos Santos, PUC-RS).
16.00- 18.00Mesa-Redonda: Teologia e CulturaProf. Dr. Leomar Brustolin, PUC-RSProf. Dr. Clint Le Bruyns, Stellenbosch UniversityProf. Dr. Roberto Ervino Zwetsch, ESTProf. Dr. Valério Schaper, ESTModeração: Prof. Dr. Júlio P. T. Zabatiero, FUV/EST
18.30 Janta.
19.30- Conferências: Teologia e Cultura
20.30 Prof. Dr. Carlos Steil, UFRGSProf.ª Dr.ª Graciela Chamorro, UFDourados7 de julho de 2008, segunda-feira.
8.30- Parceria de pesquisa – debate aberto
10.30 Cafézinho
11.00- Painel: Teologia pública: uma perspectiva globalProf. Dr. Max Stackhouse, Princeton.Prof. Dr. Inácio Neutzling, UnisinosProf. Dr. Nico Koopman, Stellenbosch.Prof.ª Dr.ª Catalina Romero, LimaModeração: Prof. Dr. Rudolf von Sinner, EST
12.30 Almoço
14.00 Lançamento do Instituto de Ética e Teologia Pública da Faculdades EST
16.00 Programa de visita à ação comunitária da EST e UNISINOS
Mais informações:Coordenação:
Prof. Dr. Rudolf von Sinner - Apoio: Grupo de Pesquisa Ética Teológica e Sociedade.Comitê Científico (comunicações):
Prof.ª Dr.ª Cleuza Andreatta
Prof. Dr. Júlio Paulo Tavares Zabatiero
Prof. Dr. Roberto Ervino Zwetsch
Prof. Dr. Valério Guilherme Schaper

Mais informações no site: http://www.unisinos.br/ihu/