sábado, 22 de setembro de 2012

CARTA ENCÍCLICA «RERUM NOVARUM» DO PAPA LEÃO XIII SOBRE A CONDIÇÃO DOS OPERÁRIOS


Rerum Novarum: sobre a condição dos operários é uma encíclica escrita pelo Papa Leão XIII no final do século XIX. Era uma carta aberta aos líderes da igreja católica, na qual debatia as condições das classes trabalhadoras durante a revolução industrial. A carta, basicamente, defende reformas na sociedade, no entanto, repudia as ideias socialistas, principalmente o antagonismo de classe. O pontífice julgava serem necessários alguns ajustes na sociedade de então, que, segundo ele, fazia parte de uma “coisa nova”. Os ajustes diziam respeito, por exemplo, às novas relações de trabalho, tais como: melhores condições laborais para os proletários, assim como melhores salários. No entanto, defendia plataformas burguesas, sobretudo, à propriedade privada que, segundo a encíclica, pertencia a um conjunto de aspectos jusnaturalistas. De certa forma, as reformas não pretendiam deixar marcas indeléveis na sociedade, pois o projeto consistia mais em recuperar na sociedade princípios cristãos, tais como: fraternidade e solidariedade; do que agir objetivamente. Por conta disso, entendemos que a encíclica tinha como finalidade última evitar um levante social proletário.

Vejamos alguns trechos:

Causas do conflito
2. Em todo o caso, estamos persuadidos, e todos concordam nisto, de que é necessário, com medidas prontas e eficazes, vir em auxílio dos homens das classes inferiores, atendendo a que eles estão, pela maior parte, numa situação de infortúnio e de miséria imerecida. O século passado destruiu, sem as substituir por coisa alguma, as corporações antigas, que eram para eles uma protecção; os princípios e o sentimento religioso desapareceram das leis e das instituições públicas, e assim, pouco a pouco, os trabalhadores, isolados e sem defesa, têm-se visto, com o decorrer do tempo, entregues à mercê de senhores desumanos e à cobiça duma concorrência desenfreada (...).

Contextualização:
Esse trecho da encíclica discorre sobre o programa capitalista que prevê a concorrência entre os homens em prol do lucro. Questiona o espírito moderno que relegou aos homens princípios de não-cooperação, ademais, expõe que o sentimento religioso desapareceu das instituições públicas. Quanto a isso devemos considerar que o Papa estava desaprovando em completo a laicização do estado, política amplamente aprovada pelos protestantes (HABERMAS, 1984). Para Leão XIII a separação entre estado e igreja implicava, além da perda de poder político por parte da igreja, a secularização dos costumes dos indivíduos que uma vez “libertos” da tutela da igreja poderiam questionar ainda mais a tradição, sustentáculo da igreja católica. Isso reflete o quanto o catolicismo permaneceu irredutível ao liberalismo político e religioso que já havia seduzido os protestantes (BERGER, 1996). Outro traço importante do pensamento da igreja católica nessa época é de que, embora clamassem por uma maior solidariedade entre os homens, pugnavam pela manutenção do tecido social, visto que defendiam a estratificação social entre classes superiores e classes inferiores.

Obrigações dos operários e dos patrões
10. Entre estes deveres, eis os que dizem respeito ao pobre e ao operário: deve fornecer integral e fiel-mente todo o trabalho a que se comprometeu por contrato livre e conforme à equidade; não deve lesar o seu patrão, nem nos seus bens, nem na sua pessoa; as suas reivindicações devem ser isentas de violências e nunca revestirem a forma de sedições; deve fugir dos homens perversos que, nos seus discursos artificiosos, lhe sugerem esperanças exageradas e lhe fazem grandes promessas, as quais só conduzem a estéreis pesares e à ruína das fortunas.
Quanto aos ricos e aos patrões, não devem tratar o operário como escravo, mas respeitar nele a dignidade do homem, realçada ainda pela do Cristão. O trabalho do corpo, pelo testemunho comum da razão e da filosofia cristã, longe de ser um objecto de vergonha, honra o homem, porque lhe fornece um nobre meio de sustentar a sua vida. O que é vergonhoso e desumano é usar dos homens como de vis instrumentos de lucro, e não os estimar senão na proporção do vigor dos seus braços. O cristianismo, além disso, prescreve que se tenham em consideração os interesses espirituais do operário e o bem da sua alma. Aos patrões compete velar para que a isto seja dada plena satisfação, para que o operário não seja entregue à sedução e às solicitações corruptoras, que nada venha enfraquecer o espírito de família nem os hábitos de economia. Proíbe também aos patrões que imponham aos seus subordinados um trabalho superior às suas forças ou em desarmonia com a sua idade ou o seu sexo.
Mas, entre os deveres principais do patrão, é necessário colocar, em primeiro lugar, o de dar a cada um o salário que convém. Certamente, para fixar a justa medida do salário, há numerosos pontos de vis-ta a considerar. Duma maneira geral, recordem-se o rico e o patrão de que explorar a pobreza e a miséria e especular com a indigência, são coisas igualmente reprovadas pelas leis divinas e humanas; que comete-ria um crime de clamar vingança ao céu quem defraudasse a qualquer no preço dos seus labores: «Eis que o salário, que tendes extorquido por fraude aos vossos operários, clama contra vós: e o seu clamor subiu até aos ouvidos do Deus dos Exércitos»(6). Enfim, os ricos devem precaver-se religiosamente de todo o acto violento, toda a fraude, toda a manobra usurária que seja de natureza a atentar contra a economia do pobre, e isto mais ainda, porque este é menos apto para defender-se, e porque os seus haveres, por serem de mínima importância, revestem um carácter mais sagrado. A obediência a estas leis — pergunta-mos Nós — não bastaria, só de per si, para fazer cessar todo o antagonismo e suprimir-lhe as causas?
11. Todavia a Igreja, instruída e dirigida por Jesus Cristo, eleva o seu olhar ainda para mais alto; propõe um conjunto de preceitos mais completo, porque ambiciona estreitar a união das duas classes até as unir uma à outra por laços de verdadeira amizade. Ninguém pode ter uma verdadeira compreensão da vida mortal, nem estimá-la no seu devido valor, se não se eleva à consideração da outra vida que é imortal. Suprimi esta, e imediatamente toda a forma e toda a verdadeira noção de honestidade desaparecerá; mais ainda: todo o universo se tornará um impenetrável mistério (...).
Não, Deus não nos fez para estas coisas frágeis e caducas, mas para as coisas celestes e eternas; não nos deu esta terra como nossa morada fixa, mas como lugar de exílio. Que abundeis em riquezas ou outros bens, chamados bens de fortuna, ou que estejais privados deles, isto nada importa à eterna beatitude: o uso que fizerdes deles é o que interessa (...).

Contextualização:
Esse trecho da encíclica é uma das que mais expressam o pensamento teológico da igreja católica em relação às classes sociais, visto que as citações estão impregnadas de uma análise à luz das fontes bíblicas, principalmente na compreensão neotestamentária sobre obediência e servidão. Quanto a isso podemos fazer alusão à epístola a Filemom. Nessa epístola o apóstolo Paulo escreve para Filemom, proprietário do escravo Onésimo, que havia fugido. Ao que tudo indica os dois eram cristãos convertidos e Paulo, portanto, admoesta Onésimo que volte ao seu senhor e lhe obedeça, por sua vez, recomenda que Filemom trate Onésimo com amor, visto que os dois agora são irmãos na fé. Essa compreensão do Papa visa refutar ou amenizar os próprios escritos marxianos que compreendiam a história das sociedades como uma constante luta entre classes (MARX; ENGELS, 2008).
Outro ponto importante na epístola é a menção do trabalho degradante ao qual eram submetidos não apenas os proletários, mas, também, mulheres e crianças. Quanto a esse tema o Papa não se afasta da compreensão medieval de que o trabalho era punição para o homem pecador, instrumento de Deus para punir e educar os corpos. Isso, de certa forma, não se coaduna com o espírito da época moderna, o qual atribuirá ao estado a tarefa adestradora dos corpos, como bem analisou Foucault (1979).
Por fim, Leão XIII exorta os fiéis católicos que se orientem pelas benesses celestes e não com as terrestres, ou seja, toda esperança de plena satisfação e felicidade humana reside na perspectiva do paraíso prometido por Deus, enquanto não contemplamos esse desígnio nos resta abdicar de interesses que excedam essa esperança.

Dignidade do trabalho
13. Quanto aos deserdados da fortuna, aprendam da Igreja que, segundo o juízo do próprio Deus, a pobreza não é um opróbrio e que não se deve corar por ter de ganhar o pão com o suor do seu rosto. É o que Jesus Cristo Nosso Senhor confirmou com o Seu exemplo. Ele, que «de muito rico que era, Se fez indigente» (18) para a salvação dos homens; que, Filho de Deus e Deus Ele mesmo, quis passar aos olhos do mundo por filho dum artesão; que chegou até a consumir uma grande parte da Sua vida em trabalho mercenário: «Não é Ele o carpinteiro, o Filho de Maria?» (19). Quem ti-ver na sua frente o modelo divino, compreenderá mais facilmente o que Nós vamos dizer: que a verdadeira dignidade do homem e a sua excelência reside nos seus costumes, isto é, na sua virtude; que a virtude é o património comum dos mortais, ao alcance de todos, dos pequenos e dos grandes, dos pobres e dos ricos; só a virtude e os méritos, seja qual for a pessoa em quem se encontrem, obterão a recompensa da eterna felicidade. Mais ainda: é para as classes desafortunadas que o coração de Deus parece inclinar-se mais. Jesus Cristo chama aos pobres bem-aventurados (20): convida com amor a virem a Ele, a fim de consolar a todos os que sofrem e que choram(21); abraça com caridade mais terna os pequenos e os oprimidos. Estas doutrinas foram, sem dúvida alguma, feitas para humilhar a alma altiva do rico e torná-lo mais condescendente, para reanimar a coragem daqueles que sofrem e inspirar-lhes resignação. Com elas se acharia diminuído um abismo causado pelo orgulho, e se obteria sem dificuldade que as duas classes se dessem as mãos e as vontades se unissem na mesma amizade.

Contextualização:
Num primeiro momento esse trecho parece contrapor-se ao comentado anteriormente, pois, neste, o Papa Leão XIII destaca o trabalho como atributo da dignidade humana e cita, inclusive, Jesus como um exemplo a ser seguido que, mesmo sendo o filho de Deus, trabalhou dignamente com seu pai, José. Leão XIII não propõe com isso uma ruptura na interpretação católica do conceito trabalho como punição – visto que trabalho como dádiva está associado mais ao protestantismo puritano, como discutiu Weber em A ética protestante e o espírito do capitalismo (2006) –, obviamente, esse trecho é uma exortação moral aos fiéis para que estes se mantenham em seus respectivos empregos. Isso era fundamental para que o aspecto de coesão se sobrepusesse ao aspecto de contradição social cada dia mais latente no corpo social. O trabalho, nesse trecho, é o elo que garante a renda – embora insuficiente – do proletário e o distancia das convulsões sociais. A solução, embora paliativa, tinha como principal objetivo frear os ímpetos dos proletários católicos que, insatisfeitos com suas condições de trabalho, aderiam às ideias comunistas.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BÍBLIA SAGRADA: Nova Tradução na Linguagem de Hoje. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2000.

BERGER, Peter. Rumos de anjos: a sociedade moderna e a redescoberta do sobrenatural. Petrópolis. RJ: Vozes, 1996.

FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979.

HABERMAS, Jürgen. Mudança estrutural da esfera pública: investigações quanto a uma categoria da sociedade burguesa. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1984.

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. São Paulo: Martin Claret, 2000.

WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: Pioneira, 1967.

DOCUMENTOS DA IGREJA CATÓLICA APOSTÓLICA ROMANA

LEÃO XIII. Encíclica: RERUM NOVARUM. (1891) Disponível em:  http://www.vatican.va/holy_father/  leo_xiii/encyclicals/documents/hf_lxiii_enc_ 15051891_rerum-novarum_po.html. Acesso em: 20 set. 2012.
 

terça-feira, 18 de setembro de 2012

AS RELAÇÕES ENTRE ESTADO E SOCIEDADE NO BRASIL - UMA PERSPECTIVA SOCIOLÓGICA





Este trabalho analisa as relações entre o estado e a sociedade no Brasil, principalmente na relação entre o populismo como fenômeno político e o estado brasileiro na era Vargas.


Destacamos, de maneira introdutória, que para entender pormenorizadamente a relação entre estado e sociedade no Brasil é preciso se deter nas obras clássicas do pensamento brasileiro, em diversas áreas do conhecimento, tais como: economia, sociologia, história etc. Assim, com relação a esse problema, consideramos primeiramente que o Brasil é um país de capitalismo tardio (FURTADO, 2007), e que a democratização do estado se deu, também, pelas vias econômicas após a crise de 1929 e a sua consequência, a revolução de 1930. Essa revolução foi, sobretudo, uma revolta dos setores médios urbanos contra o modelo oligárquico que priorizava o comércio externo, ao invés de fortalecer o mercado interno.

No entanto, após a revolução de 1930 as camadas médias urbanas não conseguem se apropriar de um discurso necessário para construir bases sólidas de uma nova estrutura para o estado. Desse modo nem a camada média urbana, tampouco a oligarquia consegue, após a revolução, o domínio pleno do campo político. É nesse momento, então, que entra em cena o “fantasma do povo” na política brasileira (WEFFORT, 1980).

Nessa lacuna existente tanto no campo político quanto no campo econômico brasileiro, Getúlio Vargas, na década de 1930, terá um papel fundamental na dinâmica que dará ao estado brasileiro. Esse estado brasileiro, portanto, não terá o fundamento de construto mental, como na maioria dos países do Ocidente, pois no Brasil ele adquirirá uma nova forma e uma nova relação com o cidadão, a saber, a relação direta.

Todavia, esse participante direto, a massa popular, é desprovida, nesse momento, de uma consciência de classe proletária, ou seja, a sua consciência é simplesmente de massa (IANNI, 1980). Essa massa, de certa forma, será o sustentáculo do líder populista, nesse caso, Getúlio, e, consequentemente, irá legitimar o Estado Novo. A transfiguração ideológica desse populismo alicerçado na figura carismática do líder será o nacionalismo. Sendo assim, as relações entre a sociedade brasileira, especificamente os grupos e entidades de classe, e o estado é de mútua dependência.

Raras foram às vezes em que a massa popular brasileira quebrou esse vínculo tão estreito com o estado numa atitude de autonomia. Um dos casos que podem nos servir de exemplo tem relação direta com a política de saúde pública adotada pelo estado brasileiro no início do século XX. Embora, no caso brasileiro, a chamada revolta da vacina não tenha relações tão estreitas com os pressupostos filosóficos que serviram de base para as revoltas populares na Europa do século XVIII, a qual continha elementos liberais que garantiam o direito sobre o próprio corpo (FOUCAULT, 1976), os motivos eram, também, referentes à saúde pública. Portanto, isso nos serve de testemunho na história do pensamento social brasileiro da não-passividade da massa perante uma postura imposta pelo estado.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979.

FURTADO, Celso. Formação econômica do Brasil. 34ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

IANNI, Octávio. O colapso do populismo no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980.

WEFFORT, Francisco. O populismo na política brasileira. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

É POSSÍVEL FAZER DA AULA EXPOSITIVA ALGO ALÉM DAQUILO QUE REZA A CARTILHA TRADICIONAL?




Osima Lopes é graduada em Pedagogia e Filosofia pela Universidade Federal do Piauí (UFPI), e possui um mestrado em Educação pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Atualmente é professora na Faculdade Integral Diferencial. Tem experiência docente e técnica na área de Educação (educação básica e superior), atuando principalmente nos seguintes temas: didática, ensino superior, currículo, metodologia da pesquisa.

Esse capítulo produzido pela pesquisadora Osima Lopes extraído da obra Técnica de ensino: porque não? Discute as possibilidades de êxito didático ao usar um método tradicional: a aula expositiva. Segundo a autora a aula expositiva pode estimular o pensamento crítico do aluno, despertar a sua curiosidade manifesta por intervenções e perguntas e, assim, dar à aula uma dimensão dialógica. Contudo, essa experiência não deve ficar apenas na conversação, mas sim produzir um efeito no que diz respeito ao saber, fim último de todo processo de ensino-aprendizagem, ou seja, partir da informação, mas avançar para o conhecimento.

Ainda, segundo a autora, é possível caminhar da realidade dos alunos (concepções de mundo), para uma dimensão científica (teoria), fazendo com que os alunos reflitam suas próprias realidades. Para isso é fundamental que exista nesse processo a problematização de questões, situações, práticas etc. Desse modo, docente e discente tendem a desnaturalizar o contexto em que vivem e, assim, construir conhecimentos e novas possibilidades para o saber.

Por fim, a autora orienta que qualquer método, ou pressupostos de ensino, tem seus potenciais construtivos e limitações e, por isso, cabe ao docente usar esse método – a aula expositiva – como uma ferramenta libertadora e não, meramente, instrumento de repressão.

Referência Bibliográfica

LOPES. Osima. A aula expositiva: superando a tradicional. IN: VEIGA, Ilma A. (org) Técnicas de ensino: porque não? Campinas: Papirus, 1991 - p. 35 a 47

 

domingo, 22 de julho de 2012

ENSAIO SOBRE MODELOS DE AUTORIDADE ETNÓGRAFICA NA PERSPECTIVA DE JAMES CLIFFORD


James Clifford é professor do Programa de História na Universidade da Califórnia, (EUA). Sua obra versa sobre antropologia e modernidade, na qual propõe historicizar a cultura no sentido antropológico ou etnográfico. No artigo Sobre a autoridade etnográfica Clifford demonstra como se foi construindo historicamente a noção de autoridade etnográfica, ou seja, o modo como o autor se coloca presente no texto, como ele legitima um discurso sobre a realidade e, de certo modo, como ele legitima sua experiência no campo.
Nesse sentido, Malinovski, principalmente com o seu livro Os Argonautas do Pacífico Ocidental é considerado o divisor de águas. Antes dele, o etnógrafo – aquele que descrevia os costumes –, e o antropólogo – aquele que era o construtor de teorias gerais – eram personagens distintos, o que constantemente gerava uma tensão entre experiência e interpretação, empiria e teoria.
No entanto, no auge do trabalho etnográfico (1900-1960), houve significativa mudança de foco sobre o etnógrafo, ao mesmo tempo em que ocorreu uma academicização do trabalho de campo. Clifford faz menção a uma indagação comum na antropologia nessa época de academicização em relação ao trabalho etnográfico: “Se a etnografia produz interpretações culturais através de intensas experiências de pesquisa, como uma experiência incontrolável se transforma num relato escrito e legítimo?” (CLIFFORD, 1998, p.21).
Dessa indagação surge, então, um profissional especializado (etnógrafo profissional) em pesquisa de campo. Nessa perspectiva o missionário, o viajante, o comerciante são todos enquadrados como participantes não-neutros, ademais, por não possuírem conhecimentos específicos sobre o contexto dos povos que descreviam comprometiam suas descrições.
Após a ascensão desse etnógrafo especializado se propaga a ideia da observação participante. Contudo, para que esses modos de autoridade etnográfica se firmassem, eram necessárias, no entanto, inovações metodológicas, ou seja, o etnógrafo profissional deveria viver entre aqueles que quisesse descrever. Deveria usar a língua dos nativos e, por fim, ter um senso de observação apurado capaz de descrever as minúcias do sistema cultural dos povos observados. A pretensão, nesse caso, era que a etnografia estivesse mais para abstrações teóricas do que para inventários exaustivos de costumes e crenças, como faziam, por exemplo, os missionários.
Em seguida, James Clifford discorre sobre os modos de autoridade: o experiencial, o interpretativo, o dialógico e o polifônico, e analisa alguns pontos frágeis nesses modelos, os quais podem comprometer a autoridade etnográfica.
O modelo clássico de modo de autoridade seria o experiencial, que é exemplificado com Malinowski, onde se tenta comprovar o “Eu estive lá”, pois, a experiência tem servido como autoridade etnográfica, visto que existe uma relação importante entre o pesquisador e sua capacidade de apreender o objeto de estudo.
 No modelo interpretativo a crítica principal recai no entendimento de que se possa ver a cultura como um conjunto de textos, “‘a textualização’ é entendida como pré-requisito para a interpretação”. Aqui, o discurso se transforma num texto (CLIFFORD, 1998, p.39). Porém, para o autor, não há como você trazer um discurso para ser interpretado tal qual um texto é lido. “A interpretação não é uma interlocução. Ela não depende de estar na presença de alguém que fala” (CLIFFORD, 1998, p.40). Esse modelo tem importância, sobretudo, para Paul Ricouer, para o qual o entendimento do discurso depende da presença onde o discurso foi feito, pois a tradução da experiência de pesquisa num corpo textual separado de suas ocasiões discursivas de produção tem importantes consequências para a autoridade etnográfica (CLIFFORD, 1998, p.13).
Atualmente esses dois modos de autoridade, o experiencial e o interpretativo, estão cedendo lugar ao dialógico e ao polifônico. O modo de autoridade dialógico entende a etnografia como resultado de “uma negociação construtiva envolvendo pelo menos dois, e muitas vezes mais sujeitos conscientes e politicamente significativos” (CLIFFORD, 1998, p.43). Já o modo de autoridade polifônico, que rompe com as etnografias que pretendem conter uma única voz, geralmente a do etnógrafo, propõe a “produção colaborativa do conhecimento etnográfico, citar informantes extensa e regularmente” (CLIFFORD, 1998, p.54). Ironicamente, a etnografia existe num contexto de plágio, onde nativos narram suas histórias e etnógrafos as compilam para posterior interpretação e publicação. Obviamente, nessa perspectiva, os nativos também são escritores, visto que a consciência etnográfica não pode ser mais considerada como monopólio ocidental.
Desse modo, como é impossível escapar dessa ironia, a antropologia moderna tenta por os informantes nativos como construtores ativos dessa realidade, quebrando o poder absoluto do etnógrafo baseada na sua observação pessoal e, assim, as múltiplas vozes presentes na etnografia, que antes se queria esconder, agora se quer descobrir.  
Em suma, Clifford não se coaduna com a interpretação ortodoxa acerca da etnografia e sugere a problematização do método. Na esteira do filósofo hermeneuta Ricouer, Clifford considera que a descrição etnográfica pode ser tratada na perspectiva de um texto literário, assim, as intenções pretendidas pelo etnógrafo depende menos dele e mais do leitor criativo que elaborará imagens particulares e multissubjetivas sobre aquilo descrito na etnografia (CLIFFORD, 1998, p.57).

Referência Bibliográfica

CLIFFORD, James. Sobre a autoridade etnográfica. In: A experiência etnográfica: antropologia e literatura no século XX. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1998.320p.


 

quarta-feira, 21 de março de 2012

Ele esteve no meio de nós

NUMA TARDE DESSAS, um calor infernal se apossou da cidade de Curitiba e eu testemunhei tudo dentro de um ônibus.

Logo que entrei vi que um rapaz com cabelo comprido e blusa de roqueiro ofereceu seu lugar a uma senhora que passou reta pelo banco preferencial e foi lá atrás requerer o banco da cansada diarista. Por sorte dessa trabalhadora, nosso roqueiro aquiesceu seu coração e prontificou-se:

- sente aqui minha senhora!

Não ouvi um “muito obrigado”, mas por dentro a gratidão devia ser muito grande. Lá ficou o cabeludo em pé com sua mochila cheia de botons de bandas de rock. Mas, passado alguns minutos alguém se levantou para descer bem em frente do roqueiro e ele sentou novamente. Mas estava perturbado, como se fosse um insulto um roqueiro vadio ficar sentado, enquanto a massa de colarinho azul estava em pé. Cedeu seu lugar a uma mulher cheia de sacolas plásticas. Essa agradeceu baixinho, mas o que ela pretendia dizer era: como pode uma alma tão boa vagar por esse mundo tão injusto!

Mas a senhora de sacolas também precisou descer, alias a maioria já tinha desembarcado. Aqueles que permaneciam no ônibus estavam felizes pois, até que enfim, tinham um lugar para cair morto, um banco de ônibus. O roqueiro estava sentadinho ouvindo em seu IPOD alguma banda escandinava. Na última parada do ônibus (última para o roqueiro), dois ou três pessoas entraram no “bonde”, o qual tinha uns quatro ou cinco lugares vagos. Uma das mocinhas que entrou passou também reta de um banco vago e foi direto ao banco que ele estava sentado e ele mais uma vez mostrando toda a sua educação se levantou e ofereceu o lugar para a moça. Nem deu tempo de agradecer. O ônibus foi tomado por uma aura mística e nosso roqueiro curitibano de repente ficou envolto em lençóis tão alvos quanto à neve e foi subindo arrebatado pelos céus acompanhado por um séquito de lindas borboletas amarelas. Foi a última vez que o Pinhais/Campo Comprido viu essa boa alma espremida no meio de nós.

Curitiba - Sol quente.

domingo, 11 de março de 2012

O que é Psicologia Social



Silvia Tatiana Maurer Lane é uma importante pesquisadora brasileira que, desde a década de 1980 vem contribuindo nas discussões acadêmicas sobre a Psicologia Social. Em 1981 quando publicou o livro “O que é Psicologia Social” pela “Coleção Primeiros Passos”, possuía graduação em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP), posteriormente obteve seu doutorado em Psicologia pela Faculdade de Ciências e Letras de São Bento e o Pós-Doutorado pela École de Hautes Études em Sciences Sociales.




A obra de Lane aqui resenhada é o resultado das primeiras leituras sobre o tema a partir do ponto de vista psico-sociológico da autora. Nesse livro, Lane aborda uma série de problemas relacionados à Psicologia Social, tais como: as identidades sociais, os papéis sociais, as representações sociais, a linguagem, o discurso e a ideologia, e as instituições sociais, principalmente a família e a escola, trata ainda sobre trabalho e classes sociais e, por fim, faz uma reflexão teórica sobre a Psicologia Social no Brasil.



No início do livro Lane ressalta as diferenças fundamentais entre a Sociologia e a Psicologia Social, pois, justifica, que ambas as disciplinas dialogam, mas a primeira se detêm especificamente na relação entre a sociedade agindo no indivíduo, seu foco, portanto é a sociedade, enquanto a segunda se detêm na relação entre o indivíduo inserido numa determinada sociedade, portanto, seu foco é o indivíduo. Dada essa diferença epistêmica a autora explora alguns conceitos comuns a ambas as disciplinas as quais foram elencadas acima. Enfatiza a criação de identidades sociais o que acarreta a criação de papéis sociais desempenhados pelos indivíduos – ou atores – que representam funções orgânicas fundamentais na consolidação do que é considerado normal na sociedade. Por exemplo: o papel de homem-pai-marido se relaciona com o papel de mulher-mãe-esposa, isso é o normal. Alterações nesses papéis desencadeiam uma sucessiva reação social de desaprovamento.



Em seguida Lane discorre sobre o modo como esses papéis e representações são consolidados na sociedade via linguagem, a qual sustenta um discurso fomentador de ideologias. Essas ideologias são sustentadas pelas principais instituições sociais, como, por exemplo: a família e a escola.



É desde cedo na família que se ouve a frase: “menino não chora”, ou “isso não é jeito de menina”, o que demonstra como, ainda na infância, meninos e meninas vão se apropriando de papéis, os quais, paulatinamente, vão representar na sociedade. A escola, por sua vez, espaço que deveria ser destinado à autocrítica e emancipação do indivíduo coopera na reprodução dos papéis sociais, ou classes sociais, para usarmos uma expressão de Bordieu (1988).



Em outro capítulo Lane analisa à questão do trabalho, no qual expõe as contradições inerentes a uma sociedade capitalista. Nesse aspecto a autora faz uma leitura marxista sobre as classes sociais, as quais têm suas gêneses na relação entre os que detêm os meios de produção e os que não detêm e, por isso, vendem a única coisa que possuem: a mão de obra. Nesse caso, Lane questiona a dicotomia entre trabalho intelectual e trabalho braçal, o qual, segundo a autora, nada mais é do que uma ideologia proposta pelos grupos dominantes.



Por fim, Lane faz uma crítica ao próprio desenvolvimento da Psicologia Social no Brasil, a qual ainda tem dificuldades em se inserir no contexto social através da práxis, pois, segundo a autora, os acadêmicos da Psicologia Social estão circunscritos aos próprios termos teóricos (debates). No entanto, se o foco da Psicologia Social é o indivíduo, o teórico precisa dimensionar sua esfera contextual: a própria sociedade em que este está inserido.



Leitura provida de senso-crítico, análise psico-sociológica e engajamento político, ademais, Lane propõe um corte na própria carne ao criticar o não-engajamento dos teóricos da Psicologia Social no contexto dos indivíduos que são objetos de suas pesquisas. Lane é leitura indispensável para as discussões sobre Psicologia Social no Brasil.




REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

LANE, Silvia T. Maurer. O que é Psicologia Social. São Paulo: Brasiliense, 1981 – (Coleção Primeiros Passos; 39), 1981.

BORDIEU, Pierre. Escritos de Educação. Petrópolis: Vozes, 1998.